Memória · 1978 · Belo Horizonte
Patrus, algumas palavras

O tempo seguiu seu curso, e era 1978 quando eu via o professor passar correndo pelos caminhos da Universidade Católica de Minas Gerais. Lembro-me dele sempre com o mesmo terno cinza-claro e a gravata voando ao vento. Eram muitas aulas para sustentar a família. Morava ali perto, no Dom Cabral, e, com o Padre Magela, coordenava as missas campais das primeiras sextas-feiras de cada mês.
E o Chevette e a chave?
Espera aí, vou contar.
Eu sempre via Patrus correndo de uma aula para outra pelos caminhos da universidade. O terno era o mesmo, cinza-claro, e a gravata, preta.
Foi assim que descobri, de uma maneira bastante curiosa, que tínhamos carros iguais: um Chevette prata-claro.
Naquela época, os carros ainda eram abertos apenas com chave. Certo dia, lá estava eu tentando abrir o Chevette de Patrus com a chave do meu próprio carro, quando ele chegou:
— Hei! O que está acontecendo aí?
Eu tentava abrir o Chevette de Patrus com a chave do meu carro. Olhei para o lado e, então, vi o meu próprio carro. Estava tentando abrir o carro errado!
Engano desfeito, Patrus me deu um abraço fraterno, daqueles que selam uma amizade.
Trinta anos se passaram.
Lá estava eu, agora como consultor da UNESCO para o Programa Bolsa Família. O recém-empossado ministro do Desenvolvimento Social era justamente Patrus Ananias.
Na UNESCO, minha função era atuar como gestor, acompanhar a implementação do programa e apontar eventuais divergências. A UNESCO também incorporava ao Bolsa Família experiências internacionais de distribuição de renda, reunindo conhecimentos de mais de 300 programas dessa natureza ao redor do mundo.
Foi assim que conheci, de perto, o programa funcionando.
Certa vez, subi a Serra das Confusões, no interior do Piauí, para encontrar seu Nicanor, um homem de 70 anos que, segundo me contou, nunca havia tido dinheiro nas mãos. Com o Bolsa Família, realizou o sonho de ter uma privada.
Comprou-a e subiu a serra carregando-a nas costas por mais de quatro quilômetros.
— Eu não uso, mas as crianças usam. Depois de 70 anos fazendo agachado, não consigo mudar.
Martinez, depois de 30 anos, realizou o sonho de comer pão. Com o dinheiro que começou a circular na Serra das Confusões, alguém montou uma padaria. Agora havia pão.
— Deus é fiel! — gritava Martinez, com as mãos para o céu.
O milagre do pão, pensei.
Dona Risa sorria para mim e para todos ao redor. Com o Bolsa Família, havia realizado o sonho de voltar a sorrir.
— Comprei uma dentadura — dizia, enquanto a tirava da boca para me mostrar a prova da conquista.
Certa vez, no interior de Goiás, encontrei uma família que me mostrou, orgulhosa, os sapatos que agora calçavam todos. Eram trinta anos andando descalços. Agora, pai, mãe e os quatro filhos tinham sapatos.
São histórias simples, mas que revelam o que os números muitas vezes não conseguem mostrar: o significado concreto de uma política pública na vida de quem mais precisa.
Voltando ao caso do Chevette, fui apresentado pela coordenadora da UNESCO no Brasil, Marlova Noleto, ao ministro Patrus Ananias.
Era uma reunião solene entre a UNESCO e o Ministério do Desenvolvimento Social. Entrei, sentei-me e aguardamos o ministro.
Patrus entrou, olhou para mim e disse:
— Eu te conheço!
Respondi:
— Sou o dono do Chevette prata-claro da universidade.
Ele não entendeu imediatamente. Logo expliquei a história, e todos começaram a sorrir.
Trinta anos depois, o Chevette ainda nos aproximava.
Antes de terminar, quero deixar também o testemunho dos colegas da UNESCO sobre a gestão de Patrus à frente do Ministério do Desenvolvimento Social.
— É o Ministério mais organizado e que melhor funciona em toda a Esplanada.
— Funciona como um relógio suíço.
— Cada centavo gasto no MDS, no Bolsa Família, é contabilizado.
Esse era o testemunho de Marlova Noleto, então coordenadora-geral da UNESCO no Brasil.
Patrus, depois de tantos anos, tantas histórias e tantos caminhos cruzados, chego ao ponto mais simples desta mensagem:
Preciso do seu voto.
Os Patrus, que no Líbano são Pátrus, cristãos heróis de muitas guerras,. Conheci todos nos meus 3 anos no Líbano.
