Crônica · 1977 · Belo Horizonte

A reunião secreta

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1º capítulo

Estação Central de Belo Horizonte, com a estrutura ferroviária e a cidade ao redor
Imagem temática. Estação Central de Belo Horizonte, Brasil. Fotografia de CivArmy / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

À noite, quando o vento sopra quente vindo do Golfo do México, caminho pelas ruas quase sempre desertas de Houston. E, junto com o vento, vêm o tempo que passou e as memórias que ficaram.

Era junho de 1977 quando entrei pela primeira vez no campus da universidade. Parecia que estava entrando em outro mundo. E, de fato, estava. Vieram as descobertas, as leituras, os amigos e aquele tempo que hoje só existe na lembrança.

Já na segunda semana de aula, eu era o mais novo integrante do movimento estudantil. Aos dezoito anos, acreditava sinceramente que a transformação do mundo estava ao alcance das nossas mãos.

Numa manhã de agosto, pouco antes de entrar na sala de aula, fui avisado de que Leon, nosso líder, queria falar comigo. Leon, com toda a experiência e leitura que julgávamos infinitas, era o mais velho do grupo, com seus incompletos vinte e quatro anos. Querido e respeitado por todos, tinha sempre os melhores argumentos e discursava como Trótski.

— Ariel, me disseram que você mora sozinho. É verdade?

— Mais ou menos, Leon. Meus pais aparecem de vez em quando.

— Muito bem. Então escute. Vamos fazer uma reunião secreta no seu apartamento.

Secreta porque vivíamos em plena ditadura militar, e os estudantes eram constantemente vigiados.

— Quando?

— Sábado.

— Neste sábado?

— Sim. E preste atenção: para despistar a polícia, o pessoal vai chegar em casais, a partir das quatro da manhã. Serão muitos "casais", mais de vinte.

Olhei para ele por alguns segundos.

— Leon, deixa eu ver se entendi. Para despistar a polícia, mais de vinte casais vão chegar às quatro da manhã de sábado no meu apartamento para participar de uma reunião secreta?

— Exatamente. E esteja acordado para receber o pessoal.

E assim foi.

No sábado, às três da manhã, eu já estava de pé, esperando os "casais". E eles foram chegando.

Lá pelas cinco, o interfone tocou. Era Nicanor, o porteiro.

— Ariel, o que está acontecendo aí? Que povão é esse que está subindo? Já passaram mais de vinte casais!

— Não se preocupe, Nicanor. São colegas da universidade. Vieram fazer um trabalho de classe.

— Trabalho de classe às cinco da manhã? E só em casal? Conta outra. Escuta, Ariel, seu pai não quer saber de festa no apartamento. Você vai me colocar em dificuldade.

— Fica tranquilo, Nicanor. Está tudo sob controle.

Às seis horas, todos já estavam presentes para a reunião secreta: mais de cem pessoas.

Foi então que Leon me chamou.

— Ariel, toma este dinheiro. Ernesto e Rosa vão com você comprar as coisas para o café da manhã. Compre bastante, porque vamos ficar aqui por muito tempo.

E lá fomos nós para a padaria.

Cheguei ao balcão, onde Berenice, a atendente, já me conhecia.

— Oi, Ariel. O que vai ser hoje?

— Oi, Berenice. Vou levar trezentos pães franceses, cinco quilos de muçarela fatiada, dois quilos de manteiga, cinco quilos de presunto, vinte litros de leite, cinco quilos de café... Ah, e mais cinco quilos de açúcar.

Ela me olhou, divertida.

— Só isso?

— Só.

Foi então que ouvi uma voz atrás de mim:

— Ué, Ariel! Vai montar uma creche?

Um arrepio percorreu minha espinha. Eu conhecia aquela voz.

Virei lentamente e dei de cara com seu Nelson Selmam, vizinho e grande amigo do meu pai.

— Olá, seu Nelson. Bom dia.

— Bom dia, garoto. Mas me explica: para que tanto pão?

Pensei durante um segundo que pareceu uma eternidade.

— Sabe, seu Nelson... Ouvi dizer que o preço do pão vai subir muito amanhã. Resolvi fazer um estoque. O senhor sabe como eu gosto de pão.

Ele franziu a testa.

— Estocar pão? Essa é nova.

— Eu guardo na geladeira. Fica fresquinho.

Sem lhe dar tempo para outra pergunta, despedi-me:

— Bom dia, seu Nelson. Já vou indo.

Eu, Ernesto e Rosa pegamos as compras e saímos dali quase correndo.

Estou ferrado, pensei.

Naquele momento, eu tinha muito mais medo de meu pai descobrir a reunião secreta do que da própria ditadura.

CONTINUA AMANHÃ.