Crônica · 1970 · Belo Horizonte
Apartamento 91
Rua Goiás, 171, Edifício Automóvel Clube

Ainda me lembro da tinta fresca nas paredes e do odor forte do sinteco recém-aplicado. Da varanda, eu via o meu sonho: morar em uma cidade grande.
O ano era 1970, e havíamos chegado do interior de Santa Catarina para viver em Belo Horizonte. O prédio imponente logo capturou minha imaginação, principalmente à noite, quando as luzes da cidade, os sons dos carros e o movimento das ruas se apresentavam como uma verdadeira metrópole aos olhos daquela criança interiorana.
Na época, o Edifício Automóvel Clube era residência de advogados e juízes que queriam morar perto do Tribunal de Justiça e do Fórum de Belo Horizonte. Foi assim que compramos nosso apartamento da viúva do Dr. Theotônio dos Santos, juiz de Carangola. Minha mãe dizia que o filho do juiz havia morado no prédio por muitos anos e que agora era “terrorista”, tendo fugido para o Chile. Vivíamos os anos de chumbo da ditadura militar.
Certa vez, percorri o prédio com o seu Tião, zelador que já vivia havia muitos anos no subsolo. Ele me contou que aquele imenso subsolo havia sido originalmente construído para servir de abrigo antiaéreo. As obras do Automóvel Clube começaram exatamente quando o Brasil entrou na Segunda Guerra Mundial. Temia-se um bombardeio alemão à cidade, tanto que a prefeitura chegou a organizar diversas simulações de ataque aéreo para preparar a população para o pior.
Certa feita, entrei no elevador, e meu pai, cerimoniosamente, me apresentou ao Presidente do Brasil. Juscelino Kubitschek era padrinho de casamento de Nelson e Adi Sellman, que moravam no apartamento 131. Ele era figura constante no elevador: o saudoso Presidente JK.
Quem também circulava pelo prédio era o escritor Pedro Nava. Minha mãe, sua fã, conseguiu vários autógrafos ali mesmo, no elevador.
O querido seu Tião também me ensinou a “passagem secreta”. Havia uma porta, quase sempre aberta, que ligava o subsolo do edifício ao subsolo do salão de festas do Automóvel Clube, o mais chique e refinado da época. Por essa porta passei várias vezes e frequentei, como penetra, algumas das melhores festas de Belo Horizonte nos anos 70. Ao final das festas, sempre trazia docinhos escondidos para minha mãe, pois meu pai não podia saber.
Lembro-me também de um senhor baixinho e gordinho, de andar apressado, que falava com sotaque carregadíssimo. Todos o consideravam o mais pobre do prédio, pois estava sempre vestido com roupas surradas e sapatos de sola furada. Era judeu e, quando morreu, apareceu até um caminhão-forte de uma empresa de valores para retirar do apartamento uma enorme fortuna. Lembro-me de meu pai dizendo: “O que se leva desta vida é a vida que se leva”. Coitado do milionário que viveu a vida na pobreza.
Quanto ao filho “terrorista” do Dr. Theotônio dos Santos, ele acabou sendo meu professor na universidade e ficou extremamente emocionado ao saber que o apartamento de seu pai agora estava em nossa família. Era o sociólogo Theotônio dos Santos Júnior, fundador da teoria da dependência.